O poema a seguir nasceu de um desses momentos em que a vida nos desmonta para nos ensinar outro jeito de caminhar. Fala de despedidas, de pertencimento, de dor — mas, principalmente, da coragem de seguir levando dentro aquilo que nunca se perde. Porque às vezes recomeçar não é voltar ao início: é descobrir que a casa também pode ser caminho.
Para nós, professores e educadores, esses atravessamentos são mais comuns do que gostaríamos. Mudanças inesperadas, despedidas de espaços que aprendemos a amar, vínculos que ficam para trás — tudo isso nos atravessa profundamente. Afinal, não habitamos apenas salas de aula: habitamos histórias, afetos, memórias.
Mas há algo em nós que insiste. Que resiste. Que recomeça...
Ser educador é, de certa forma, aceitar viver em movimento. É carregar na mochila não apenas planos de aula, mas também sonhos, marcas, aprendizados e encontros que nos transformam. E mesmo quando o chão parece faltar, há sempre algo que permanece: a nossa essência, o sentido do que fazemos, o porquê de termos escolhido esse caminho.
Que este poema possa ser um abraço em quem está recomeçando. Um lembrete de que a dor também faz parte da construção, mas não define o destino. Que possamos confiar nos novos corredores, nas novas histórias, nos novos vínculos que ainda estão por nascer.
E, sobretudo, que não desistamos.
Porque educar é também um ato de esperança. E quem caminha com esperança nunca está, de fato, perdido — está apenas a caminho de um novo lugar para florescer. 🌱✨
Professora
Mochileira
Comecei
na estrada
à procura de uma casa.
Mochila nas costas,
pincel na mão,
o coração aberto
como quem entende cedo
que ensinar
também é partir.
Fui
nômade de corredores,
colecionadora de olhares,
moradora provisória
de salas que me acolhiam
por um turno ou dois
e me devolviam ao mundo
no último sinal.
Até
que um dia
o chão se fez morada.
Duas escolas.
Duas casas.
Abrigos para meus sonhos.
Eu conhecia
o ranger das portas,
os vincos das paredes,
o riso dos colegas
que o tempo, paciente,
transformou em família.
Então
veio o corte.
A excedência —
palavra breve
para um abismo inteiro.
Foi
luto.
Foi dor com nome e endereço.
Foi tentar segurar o que já partia
com mãos cheias de saudade.
Relutei.
Busquei sentido.
Chorei em silêncio.
E quando vi,
a vida já tinha me arrancado
dos lugares que eram meus.
Quanta saudade eu levei.
Mas
quem caminha com mochila
aprende cedo:
nada se perde,
tudo se guarda dentro.
Agora recomeço.
Novos
corredores,
rostos ainda estranhos,
sorrisos por nascer.
Um destino que não se explica —
apenas chama.
E eu
sigo.
Porque
há uma nova escrita
correndo por dentro dos dias,
e mesmo sem lê-la inteira,
eu confio.
Se
essa é a missão,
eu abraço.
Professora
mochileira,
costurando vínculos,
plantando afetos,
espalhando amor,
aprendendo enquanto ensina
que casa, às vezes,
não é lugar:
É caminho.
E eu
vou —
na luta,
na lida,
na vida —
com a mochila cheia
e o coração aberto,
sempre maior
do que a partida.
(Sâmela Jannie)

Muito rica sua visão de recomeços. É preciso ter esse olhar de resiliência. Pois é preciso seguir.
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